sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A Viúva e o Dom Juan de Bairro.


 Ela vivia tranquilamente no quarto quentinho das suas próprias recordações.O passado era um terreno seguro, e plano,sem grandes solavancos.

Até que sua amiga,munida daquela insistência benévola-e levemente deseperada-que só as amigas têm,soltou o decreto:"Mulher,sacode a poeira !Passado é museu,o negòcio agora é o Tinder da terceira idade.Vamos achar um namorado para você na Internet!".
A princípio,veio a vergonha.Afinal,buscar afeto arrastando dedos por uma tela de vidro parecia um esporte exótico para quem conheceu o amor a moda antiga,Mas,como hoje em dia busca-se de tudo nas redes-de receita de bolo de caneca e a alma gêmea-ela resolveu entrar na brincadeira do "arrasta para a direita".
Entre dezenas de acenos sem graça e fotos de homens segurando peixes gigantes ,um sujeito deixou o numero de celular com um recado que era pura audácia:"Me add aí para conversarmos",
Ela nâo ligou muito,mas o tempo livre é o melhor amigo da curiosidade.Quando finalmente o adicionou no Whats App,veio o primeiro balde de água fria:   o infeliz não lembrava quem ela era.
Um tropeço que deveria ser um aviso divino,mas virou piada. "Ela deu um chega-pra-lá virtual".Foi você que me passou o número,meu filho. "Volta lá no aplicativo e me procura",Ele obedeceu e voltou rindo  com o rabo entre as pernas:
"Ah,foi fácil,eu só falei com você".
Homens e sua capacidade única de se perderem no próprio chaveiro.Mas a lábia era boa.Batizemos o sujeito Dom Juan de Bairro.
E assim,o analógico cedeu espaço ao digital.
Nos dias seguintes,as conversas ganharam peso,bom dia com florzinha e rotina..Ele viajou a trabalho,mas o celular vibrava e o coração acompanhava o ritmo do toque de notificação.Combinaram o grande encontro para o dia do retorno dele.A expectativa era um balão inflando devagar,daqueles que a gente decora com fita,glitter e tudo.
Quando o grande dia chegou,o balão não,voou; foi alvejado de primeira.
Ele voltou tomado por um drama digno de novela mexicana das nove.
Descobriu algo que o deixou"muito bravo",uma confusão hercúlea envolvendo um bem pessoal,uma máscara que ele precisava derrubar com as próprias mãos.O foco mudou dela para o mundo exterior,e ela sobrou na equação.Mandou mensagem;ele ignorou.O Dom Juan virou uma assombração virtual.
No dia seguinte, a academia virou um verdadeiro palco  de tortura psicológica.
O corpo cumpria os exercícios no piloto automático,mas a mente estava algemada á tela do celular.O personal trainer falava de foco,carga postura:
"Mas força nessa série,vamos!".,e ela só conseguindo pensar no esforço sobre-humano que fazia para não olhar o celular a cada dois minutos.Se queimar calorias fosse proporcional á ansiedade de esperar um "Digitando...",ela teria  desaparecido no meio das esteiras.
O treino terminou .Nenhuma resposta .Ela ligou. O celular tocou chamou até a exaustão da secretaria eletrônica.No carro, a caminho de casa, a filósofa interna assumiu o volante :como algo que mal tinha começado a engatinhar já parecia estar no corredor da morte? 
Em casa,a rotina doméstica virou uma tentativa frustada de anestesia.Lavar a louça,secando a mão no pano a cada trinta segundos.Arrumar a sala de olho no visor.Finalmente,o celular acende:um sinal de vida!Ele avisa que está em outra cidade resolvendo o tal mistério particular.Não dava para falar agora. Foi um alívio passageiro,mas a dúvida permaneceu flutuando na sala como poeira no ar.Haveria  encontro ou não?
O entardecer trouxe o suspense e, com ele,o retorno do pior tipo de silêncio moderninho:aquele que vem acompanhado do risco azul de "visualizado" e não respondido." As dúvidas rondaram a cabeça dela como corvos,"Sou intensa demais",pensou,sentindo o peso da própria  vulnerabilidade.É o preço que se paga por ter um coração vivo,quente e pulsante em tempos de afetos rasos,líquidos e descartáveis.
A promessa de uma ligação ao chegar  em casa derreteu-se junto com as horas no relógio.Nenhuma mensagem tardia.Nem um mero"boa noite,cheguei".O óbvio,por mais que a gente tente empurrar para debaixo do tapete,cobra o seu espaço e acende a luz da realidade,
O Dom Juan  de Bairro revelou-se apenas mais um mestre em sumiços estratégicos, o famoso mago do ghosting.Mas ela,que já havia  sobrevivido a ausência reais,profundas e definitivas na vida,não nasceu para morar em sala de espera de homem nenhum.Olhou para a tela uma última vez,respirou fundo e recolheu a sua intensidade para quem tiver a coragem de recebê-la.Vida que segue,e de prefência ,com o celular no modo"Não Pertube".

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