terça-feira, 1 de setembro de 2026

A Geometria das Janelas.


 Sempre que caminho pela cidade ao anoitecer,meus olhos se voltam para cima.No paredão cinza dos edifícios ,uma colcha de retalhos luminosa começa  a se desenhar.São quadrados amarelos,retângulos azulados pelo reflexo da televisão e frestas discretas da luz morna. Cada janela é uma moldura.Cada moldura esconde uma vida inteira. 

Fico imaginando os roteiros invisíveis daquela geometria.Na janela do terceiro andar,onde a luz da cozinha é forte,alguém deve estar testando uma receita nova ou lavando a louça enquanto pensa,  no dia de amanhã.

Mas acima, na fresta do sétimo andar,o brilho azul indica um cansaço silencioso diante de uma tela.Há   janelas que se apagam cedo,revelando o descanso merecido e outras que varam a madrugada,sugerindo insônias,estudos ou choros de bebê.

Olhar para as janelas alheias não é uma questão de bisbilhotar a intimidade do outro,É na verdade,um exercício de empatia.É lembrar que,por trás do concreto frio da cidade,existem milhares de corações batendo,cada um lidando com suas próprias vitórias,dores e calmarias.Aqueles quadradinhos iluminados nos provam que,mesmo na solidão dos nossos apartamentos ,estamos todos vizinhos na aventura de existir.

As vezes,eu me pergunto quem estará lá embaixo,na calçada,olhando para a minha própria janela acesa neste momento.E o que será que imaginam da vida que pulsa do lado de cá?

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